segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Elias, o profeta bocudo

Este texto, juntamente com a charge, encontrei lá no Genizah!




Rev. Digão

Quando nos deparamos com personagens da Bíblia, geralmente os idealizamos. Achamos que os homens e as mulheres ali retratados, via de regra, eram pessoas extremamente perfeitas. Não temiam, não brincavam, não riam. Enfim, não faziam essas mundanidades que nós, pobres e podres seres mortais do presente tempo, fazemos, meio com culpa. Nos esquecemos que Davi pede perdão por seu pecado horroroso nos Salmos 32 e 51, que Moisés perdeu a paciência em Nm 20.7-13, que Paulo e Pedro tiveram um entrevero em Gl 2.11-18. Isso sem contar o profeta Jonas, que foi um desastre, ao menos aos olhos humanos.

Mas há um personagem do AT que aprecio muito. Era um sujeito que, conforme nos diz Tiago 5.17, tinha as mesmas paixões e mundanices que temos. Tinha raiva, tinha tristeza. Devido a momentos depressivos que passei, e que de vez em quando ainda passo, saltou-me aos olhos sua grande crise na caverna em I Rs 19, e como teve a audácia de argumentar com Deus. Como se diz na minha terra, magina só, minino!

Outra passagem bem interessante do profeta Elias foi quando ele peitou os profetas de Baal. Para quem faltou às aulas de Escola Dominical, lá vai uma explicaçãozinha rápida: nos tempos de Elias, reinava Acabe, rei que só fazia lambança diante de Deus, mais que seus antecessores (I Rs 16.30), o que o fazia digno de um registro no livro Guiness de Recordes como o rei mais tonto de Israel. Algo como um George W. Bush piorado. Esse rei casa-se com Jezabel, da linhagem disônia, ou seja, pagã, que implantou e quase fez vencer o culto a Baal em Israel.

Caso você não saiba, Baal era o deus da fertilidade e da prosperidade. Era o deus-sol dos fenícios e cananeus. Seu culto atraía muita gente pois primava pela licenciosidade, ao contrário do culto a Jeová, que é Deus que exige santidade.

Nesse culto a esse deus estranho, o povo de Israel quase se esqueceu completamente do Senhor. O mais engraçado é que o termo Baal significa, exatamente, senhor. Uma usurpação.

Mas Elias peita esse culto estranho. No confronto com os profetas de Baal, Elias foi de uma singeleza só. A Bíblia nos diz que ele se referiu assim a Baal: Sucedeu que, ao meio-dia, Elias zombava deles, dizendo: Clamai em altas vozes, porque ele é um deus; pode ser que esteja falando, ou que tenha alguma coisa que fazer, ou que intente alguma viagem; talvez esteja dormindo, e necessite de que o acordem. (1 Rs 18.27). Esse alguma coisa a fazer é uma tradução meio esquisita da palavra hebraica siyg, que significa perseguir algo, alguma coisa, como perseguir um objetivo, uma satisfação, uma necessidade, mas geralmente é traduzida aqui como perseguir uma necessidade fisiológica intestinal, se é que me entendem.


Como pode, um homem de Deus, zombar de Baal, dizendo que o deus falso está com diarréia? Como pode Deus usar gente bocuda assim? Pois é.

O riso é subversivo. Faz pensar, pois nos faz rir de nós mesmos, de nossa mazela, de nossa insensatez. O humor pode nos fazer voltar aos trilhos, se combinado à Palavra. Deus sabe disso, pois nos fez risonhos. E sabe que essa arma é tremenda. Afinal, esse neobaalismo que vemos hoje, com popstores andando de jatinho pra lá e pra cá com dinheiro do órfão e da viúva, é tão ridículo que só rindo mesmo, fazendo companhia ao profeta Elias!


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